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Duplo retrato

Massimo Cacciari

DUPLO RETRATO

Dois dos maiores artífices do vernáculo europeu — aquele pictórico (Giotto) e aquele literário (Dante) —, se encontram na figura de são Francisco, como se a nova linguagem nascesse precisamente da necessidade de confrontá-la e representá-la .

Mas o encontro se revela um conflito: as respectivas interpretações da revolução francescana divergem radicalmente, chegando mesmo a trair a extraordinariedade do anúncio do ‘crucifixo de Asis’. E é exatamente no jogo dessas contradições e dessas traições que vai se afirmando o espírito que marcará o nascimento da nova Europa.

Três ícones

Massimo Cacciari

TRÊS ÍCONES

Rublev, Piero della Francesca, de Eyck: três iluminantes exercícios de teologia da visão. 

A Igreja e o Reino

Giorgio Agamben

A IGREJA E O REINO

 

Na teologia cristã a única instituição que não conhece fim nem trégua é o inferno. Por isso o modelo político atual, que pretende uma economia infinita do mundo, é assim propriamente infernal. Se a igreja perde a sua vocação messiânica e a sua relação com o fim dos tempos, ela será arrastada inevitavelmente na ruína que ameaça todos os governos e todas as instituições da terra. Este breve escrito do grande filósofo italiano Giorgio Agamben é uma poderosa meditação sobre o sentido político das coisas últimas

Reflexões sobre o nacional-socialismo

Arnold I. Davidson Emmanuel Levinas Robert Musil

REFLEXÕES SOBRE O NACIONAL-SOCIALISMO

Ao desafio frequentemente proposto – como pode se esperar que uma pessoa reaja lucidamente ao nazismo no início da década de 1930? –, os ensaios de Robert Musil e Emmanuel Levinas constiutem, por sua percepção aguçada, respostas definitivas. Apesar das abordagens bastante diferentes, os ensaios não apenas mostram que era possível reconhecer a realidade do nacional-socialismo à medida que ele chegava ao poder, mas também indicam que análises de valor permanente poderiam ser formuladas desde o iníco.

Arnold I. Davidson

 

O poder que freia

Massimo Cacciari

O PODER QUE FREIA

Na Segunda epístola aos Tessalonicenses, que a tradição atribuía a São Paulo, aparece a enigmática figura de uma potência: o katechon, algo ou alguém que contém-retém-freia o assalto do Anticristo, mas que deverá ser eliminado ou liquidado – para que o Anticristo se manifeste – antes do dia do Senhor. E a interpretação dessa figura é aqui o pano de fundo sobre o qual se desenvolve uma reflexão geral – em constante «acordo divergente» com a posição de Carl Schmitt – sobre a «teologia política», ou seja, sobre as formas em que ideias e símbolos escatológico-apocalípticos se foram secularizando na história política do Ocidente, até o atual esquecimento de suas origens.

Com qual sistema político pode encontrar um compromisso o paradoxo monoteístico cristão, a fé no Deus-Trinitas? Com a forma do império, ou com a de um poder que freia, contém, administra e distribui? Ou se trataria, na verdade, de encontrar uma contaminação entre as duas? Muitas das decisões políticas que marcaram a nossa civilização giram em torno dessas questões, que na obra de alguns de seus maiores intérpretes, de Agostinho a Dante e Dostoiévski, alcançaram uma dramática representação.

As reflexões formuladas neste ensaio se completam com uma antologia das passagens mais significativas da tradição teológica, desde a primeira patrística até Calvino, dedicadas à exegese da Segunda epístola aos Tessalonicenses, 2, 6-7.