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Como sair do abismo

A recuperação psicológica de médicos e enfermeiros

Por Vittorio Lingiardi

Tradução de Cezar Tridapalli

Publicado originalmente no jornal La Repubblica em 4 de abril de 2020

 

As marcas das máscaras se apagarão dos rostos de nossos médicos e enfermeiros, mas não de suas psiques. Ao menos, não tão depressa. Não de uma vez só. Quem conhece a infeliz família das experiências traumáticas sabe que, além da experiência direta do trauma, existe uma condição chamada “trauma secundário”, algo bem conhecido dos socorristas, dos policiais rodoviários, dos bombeiros, dos que trabalham em ambulâncias. Também o conhece quem se ocupa de maus tratos e abuso de menores. É o trauma de quem precisa ver aquilo que não deveria ser visto. E intervir.

Os profissionais de saúde empenhados em cuidar das enfermarias da Covid devem apelar para a parte mais resistente e mais nobre de si, aquela que os levou a seguir uma profissão de cuidado com a saúde do outro. Não são heróis, como gostamos de pintá-los, até para sentir menos o seu cansaço. São humanos vulneráveis que, para se fortalecerem, devem se valer de recursos tais como a capacidade de produzir momentâneas dissociações mentais para enfrentar a dor, o medo e a solidão dos pacientes. E de si mesmos.

Faz parte do trabalho deles, pode-se dizer, mas nesses meses a dose de impotência e dedicação que precisaram enfrentar foi além do que qualquer um poderia considerar: um calendário maldito, equipamentos inadequados, curativos não feitos, demandas sem fim, uma relação totalmente desigual entre número de mortos e tempo psíquico para elaborá-lo. É o terreno em que imediatamente cresce o burn-out, um esgotamento que consome a energia da vocação e produz fadiga, frustração e raiva.

Em quarenta anos de prática médica, nunca tinha me acontecido de receber o telefonema de uma colega à beira de desabar devido à quantidade de escolhas clínicas e morais que precisava fazer no período de uma noite. Uma amiga enfermeira me conta que quando volta para casa tem medo de infectar os filhos, sente-se contaminada, come em um cantinho, cochila com a voz dos pacientes nos ouvidos, pensa em funerais não realizados, em pais que não se despediram. É a assim chamada fadiga por compaixão, a carga emocional do cuidado, aquilo que o traumatologista Charles Figley definia como the cost of caring, o custo do cuidado.

Não podemos nos esquecer de que esta pandemia cai nas costas de profissionais de saúde, que em muitos casos já carregam o peso de uma saúde pública nem sempre em ótimas condições, com salários inadequados, estruturas degradadas, modelo empresarial extremo, burocracia. Picos de excelência e abismos de negligência. Espero que a emergência médica mais imprevista da nossa história recente seja uma grande ocasião para repensar o sentido da saúde e do seu cuidado.

Para enfrentar terapeuticamente o trauma secundário, é preciso ter pessoal treinado. É preciso distinguir entre a intervenção extemporânea do controle e da escuta e aquela a médio e longo prazo sobre as emoções que voltam, as imagens, os cheiros, os sons. Sobre a invasão das lembranças, a vulnerabilidade e o alarme, os pesadelos noturnos. Da Organização Mundial de Saúde ao nosso Instituto Superior de Saúde, das

ordens profissionais às universidades, às associações de psicoterapia, está em curso uma mobilização que, tendo um fio condutor e indicações de intervenção, olha para o destino pós-traumático dos profissionais de saúde. As revistas científicas já estão cheias de artigos sobre o impacto psicológico da experiência que médicos, enfermeiros e paramédicos estão atravessando.

Em circunstâncias assim, a possibilidade de receber escuta e contenção, mas também indicações sobre a gestão emocional das situações mais difíceis, é fundamental. Não é uma terapia, mas é terapêutico. É um apoio, um espaço psíquico. A questão é ampla, um tema recorrente, por exemplo, é o senso de inadequação diante dos apelos de emergência. Os mais jovens talvez imaginassem uma entrada mais gradual no mundo da clínica.

Quem escolhe uma profissão de cuidado do outro, muitas vezes o faz porque conhece a dor. Tornar-se-á um cuidador ferido. Portanto, quem cuida é cuidado, quem socorre é socorrido. E esta será a tarefa dos outros cuidadores feridos, que são os psicólogos e os psicoterapeutas.