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A IMAGEM DE UM LAR IDEAL - "SOBRE A FRANÇA" DE EMIL CIORAN Bucareste, 1933.

Uma atriz digna de um filme do Woody Allen tardio - bela, desinibida e neurótica - desperta a paixão de dois jovens intelectuais. O primeiro, escritor de sucesso, ídolo da "nova geração" romena, conquista a afeição da moça, envolve-se com ela num triângulo amoroso - retratado em tempo real num romance de geração - e termina por abandoná-la, para estupefação do segundo, que, nunca chegando a possuí-la, é incapaz de entender como alguém seria capaz da loucura de não a querer. Naquele momento, Mircea Eliade e Emil Cioran - os dois jovens, respectivamente - conheciam-se apenas de maneira superficial, mas o fio de seus destinos voltaria a se cruzar muitas vezes: ambos foram, em graus variados, simpatizantes e apoiadores da Legião do Arcanjo São Miguel - a variante romena do fascismo -, ambos começaram a Segunda Guerra Mundial como adidos culturais em embaixadas europeias de seu país, o primeiro em Lisboa, o segundo em Paris. Depois do conflito que transformou para sempre a Romênia e fechou aos dois as portas de sua terra natal, ambos voltaram a se encontrar, física e espiritualmente, na França, terra que os acolheu e os transformou em quem viriam a ser - transformação que passaria, em larga medida, pelo obscurecimento voluntário do que tinham efetivamente sido, mas essa é outra história. No caso de Mihai Emil Cioran, foi na Paris do pós-guerra que nasceu E.M. Cioran, o autor que abandonaria seu idioma natal para se tornar um dos maiores prosadores franceses do século XX.

Devido ao momento (1941, ano negro para a França) e à língua (a penúltima obra escrita em romeno pelo autor) de sua composição, o livro que a Editora yné publica agora pela primeira vez no Brasil ("Sobre a França" de Emil Cioran, tradução de Luciana Persice Nogueira) é uma peça chave para entender como Cioran enxergava o país onde morava havia apenas quatro anos e do qual não mais sairia.

Curto (119 páginas), bem-escrito e não-linear (não por acaso, Cioran retomou a tradição francesa clássica do aforismo, convertendo-se em um dos grandes mestres da forma no século XX) o opúsculo "Sobre a França" recusa a sumarização na mesma proporção em que recompensa a leitura. De seus parágrafos fragmentários, compostos em linguagem poética, depreende-se o seguinte: a vitalidade de um povo depende deste estar pleno de ideias e crenças, de ideias às quais se apega até o esgotamento. A França sempre o esteve, e sempre ao máximo. Cada uma das fases da história ocidental foi ali levada à perfeição, servindo como centro irradiador de tendências para o restante da Europa. Tal desenvolvimento, no entanto, fez-se de acordo com padrões tipicamente franceses, a saber, a forma, o jogo e o bom-gosto. Incapaz de atingir o sublime e o trágico, a França não deu ao mundo os poetas ingleses nem a filosofia ou a música da Alemanha. Ela é o país da "perfeição estreita", onde não poderiam ter nascido Shakespeare, Bach ou Michelângelo, e onde Pascal é reconhecível antes por seu estilo do que pelo jansenismo que nele verte. No entanto, sobre cada criação cultural, um povo deposita parte de si, esvaziando-se ao longo do tempo. Essa é a França contemporânea para Cioran, um país esvaziado e decadente, "prestes a perder sua razão de ser", cuja contribuição final à Europa pode ser apenas o cinismo.

Cioran certamente desprezaria o filistinismo de quem exigisse que tais teses fossem originais. O romeno não havia ido à França para levar originalidade ao povo que menos dela precisava. O seu trato era mais fino: sentenças lapidares, lucidez e uma visão do que constitui uma civilização, mesmo que esgotada. Já em um livro anterior, composto em romeno e dedicado, ironicamente, ao seu país de origem ("Transfiguração da Romênia") ele exclamara: "Eu sacrificaria metade de minha vida para poder sentir, com metade da intensidade, aquilo que o último dos gregos, o último dos romanos, o último dos franceses sentiram, mesmo que por um momento, no clímax de sua história."

Aquelas linhas foram escritas em 1936 na Romênia, na volta de um período de estudos na Alemanha. O sentimento é, de certa forma, retomado no opúsculo de 1941. Em "Sobre a França", Cioran oferece uma chave possível - haverá outras, sem dúvida - para ler esta obra composta sob lentes sucessivas de amargura e cinismo:

Um país é grande menos pelo alto grau de orgulho dos cidadãos do que pelo entusiasmo que inspira nos estrangeiros, pela febre que transforma as pessoas nascidas sob outros céus em satélites dinâmicos. Será que houve, no mundo, algum país com tantos patriotas oriundos de outros sangues e de outros costumes? Será que não fomos, todos, nas crises, nos acessos ou nas respirações duradouras, patriotas franceses; não amamos a França com mais ardor do que seus filhos; não nos alçamos ou nos humilhamos numa paixão compreensível, embora inexplicável? Não fomos numerosos, vindos de outros espaços, a abraçar a França como único sonho terrestre de nosso desejo? Para nós, que chegamos de todos os tipos de países, de países azarados, o encontro de uma humanidade plenamente realizada nos seduzia, oferecendo-nos a imagem de um lar ideal

De um ponto de vista formal, o texto de "Sobre a França" parece antes um encadeamento frouxo de aforismos, cuja leitura sequencial revela uma filosofia da história e uma fenomenologia da França. No entanto, tamanho é o poder expressivo de Cioran, que o resenhista se sente tentado a destrinchar a obra em pequenos pedaços para ilustrar tanto o objeto quanto o autor do livro:

No parágrafo de abertura, por exemplo, lemos:

Não creio que eu gostaria dos franceses se eles não tivessem se entediado tanto ao longo de sua história. Mas seu tédio é desprovido de infinito. É o tédio da clareza. É o cansaço diante das coisas compreendidas. (destaques no original).

Em toda a extensão do livro, Cioran nunca é mais brilhante do que quando se debruça sobre a "superficialidade" da França, seu culto da harmonia, da abstração, do bom-gosto e do esprit em detrimento de qualquer outra qualidade.

Sobre o esprit:

A França teve o privilégio das mulheres inteligentes, que introduziram o coquetismo no espírito e o charme superficial e encantador nas abstrações. Uma tirada espirituosa vale por uma revelação. Esta é profunda, mas não pode ser expressa; aquela é superficial, mas exprime tudo. Não é mais interessante realizar-se na superfície do que se desmoronar na profundidade? Onde há mais cultura: no suspiro místico, ou numa «piada»? Nesta, claro, embora uma resposta alternativa seja a única que convém.

Sobre a forma:

A França sempre gostou de quê? Dos estilos, dos prazeres da inteligência, dos salões, da razão, das pequenas perfeições. A expressão precede a Natureza. Trata-se de uma cultura da forma, que permeia as forças elementares e espalha, por sobre todo transbordamento pessoal, o verniz bem-pensante do refinamento.

Sobre o bom gosto:

A divindade da França: o Gosto. O bom gosto. Segundo o qual, o mundo – para existir – deve agradar; ser bem-feito; consolidar-se esteticamente; ter limites; ser um encantamento do tangível; um doce florescimento da finitude. Um povo de bom gosto não pode gostar do sublime, que é afinal a preferência do mau gosto elevada ao monumental. A França considera tudo que ultrapassa a forma uma patologia do gosto. Sua inteligência não admite, tampouco, o trágico, cuja essência recusa-se a ser explícita, assim como o sublime. (destaques no original)

Sobre a razão:

A França é desprovida do lado irracional, do possível fatal. Ela não foi um país infeliz. A Grécia – da qual se invejaram a harmonia e a serenidade – sofreu o tormento do desconhecido. A língua francesa não suporta Ésquilo. Ele é por demais poderoso. Quanto a Shakespeare, ele soa doce e bonachão em francês, mesmo que, depois de ler Racine, Hamlet ou Macbeth pareçam inflamar os versos franceses. Como se a língua fosse incendiada pelo tumulto e pela paixão das palavras. O infinito não tem lugar na paisagem francesa. As máximas, os paradoxos, as notas e as tentativas, sim. A Grécia era mais complexa. (destaque no original)

Essas características transbordam, como não poderia deixar de ser, para todos os espaços da vida francesa:

Estamos diante de um povo de imanência, que criou o gênero inimitável dos detalhes sutis e reveladores da existência no mundo: o ornamento. Assim, nada mais francês que uma tapeçaria, um móvel, uma renda. Ou, no plano da arquitetura: um manoir ou um hôtel (no sentido antigo da palavra, habitação privada). Um leve ar de minueto percorre, manso e plácido, uma civilização feliz. (destaques no original)

No entanto, da plenitude à decadência, uma lei inexorável se impõe:

A decadência não é outra coisa senão a incapacidade de continuar criando no círculo de valores que nos definem. No século XVIII, a França ditava a lei na Europa. Desde então, nunca mais exerceu sua influência. O simbolismo, o impressionismo, o liberalismo etc. são seus últimos contatos vitais com o mundo, antes de soçobrar numa ausência fatal.

Ao descrever tal decadência e o estado da França à época, Cioran atinge um registro de lucidez amarga que o faz soar como um Michel Houellebecq avant la lettre, apenas de estilo mais sofisticado.

Nenhuma intervenção humana, nenhum cálculo racional pode impedir a avalanche no declive do desaparecimento. O que quer que se faça na França, qualquer que seja a medida adotada, ninguém poderá convencer os franceses a terem filhos. Quando um povo gosta da vida, ele renuncia implicitamente à continuidade. Entre a volúpia e a família, o abismo é total. O refinamento sexual é a morte da nação. A exploração máxima de um prazer instantâneo; seu prolongamento para além dos limites da natureza; o conflito entre as exigências dos sentidos e os métodos da inteligência são as expressões de um estilo decadente, que se define pela capacidade infeliz do indivíduo em manobrar seus reflexos.

Não será difícil ao leitor perceber a diferença entre um resumo frio das teses nem sempre originais de Cioran e a destreza verbal e intelectual com que são expostas em suas próprias palavras. Esta pequena obra, escondida entre as mais conhecidas do autor, valeria a pena somente por sua elegância e virtuosismo. Ao escrever sobre o país e a cultura que o acolheriam no ponto mais baixo do desastre europeu do século XX, o romeno compõe um necrológio espirituoso e visionário da França, emulando com graça muitos dos traços que ele mesmo descreve e analisa. Em suas próprias palavras:

Uma decadência cujo sentido todos percebemos torna-se fecunda para nós, não para os que a vivenciam. Novamente, nós nos enriquecemos às custas da França. Somos os vampiros intelectuais de seus tormentos.