Editora Âyiné Editora Âyiné

"Um senso de disciplina", ou "a arte é uma operação regida por um contrato " - Joseph Brodsky em defesa das formas fixas.

Por Diogo Rosas G.

 

Joseph Brodsky chegou aos Estados Unidos para dar aulas na Universidade de Michigan em 1972. No rescaldo das sucessivas ondas de choque literárias que começaram no início do século XX e culminaram nos "crazy sixties", não seria exagero dizer que, desde o primeiro momento, o apego às formas fixas tradicionais foi um dos traços de sua poesia que despertou maior estranhamento e perplexidade em seus estudiosos, alunos e leitores na América.

 

Já numa entrevista concedida no ano de 1973, surge uma variação da pergunta que se tornaria recorrente ao longo dos anos:

 

Quando os alunos de sua turma apresentaram seus próprios poemas, o que lhe surpreendeu foi o fato de que tantos escrevessem sem dar atenção à forma. Você se sente mais confortável escrevendo em formas fixas?

 

No livro Conversas (N.E.título provisório), que a Editora Âyné irá publicar em 2017, o leitor poderá encontrar tantas respostas de Brodksy sobre o tema a ponto de constituir o esboço de uma verdadeira ars poetica do escritor russo. Entrevistado enfático, de raciocínio rápido e, com frequência, sem meias palavras, sua posição é colocada de maneira caracteristicamente franca:

 

Devemos reconhecer que apenas o conteúdo pode ser inovador e que a inovação formal só pode ocorrer dentro dos limites da forma. A rejeição da forma é uma rejeição da inovação... Mais do que um crime contra a língua ou uma traição ao leitor, a rejeição do metro é um ato de autocastração pelo autor.

 

Essa tensão, aliás esboça já um dos eixos do projeto poético de Brodsky: o esforço por verter uma cosmovisão "nova" em formas consagradas pela tradição.  Na mesma entrevista de 1973, ele afirma:

 

Se você usa uma forma fixa para seu conteúdo moderno contemporâneo, você vê que, ao ser colocado nessa forma, ele funciona de maneira mais forte porque surge algo como uma tensão entre o que você está dizendo e a forma como o diz. Entre o conteúdo e a forma, e essa tensão indica a verdadeira escala da coisa nova que você está dizendo.

 

Em outras palavras, Brodsky não recorre às formas fixas a despeito de ser moderno. Ele o faz porque é moderno.  Mais de uma década depois, em 1986, um ano antes de receber o Nobel, ele volta ao tema em uma entrevista concedida à Partisan Review:

 

Simplesmente por ser cidadão de uma era diferente, você é compelido a revestir com um novo sentido a forma antiga, a velha forma, a forma já comprometida, se você preferir. Isso cria contraste, cria uma tensão e o resultado é sempre novo. Tem de ser novo. E é incrivelmente interessante.

 

Não se trata, no entanto, de um experimento a mais em uma época experimentalista. No curso dos anos, Brodsky demonstra o apego ao mesmo tempo sentimental e cerebral do artesão, do fazedor  - sentido etimológico de poeta - ao seu trabalho com as formas. Retornando aos alunos norte-americanos do russo, a entrevistadora de 1973 afirma:

 

Isso [o verso livre] parece ser característico dos poetas jovens, não? É provavelmente por isso que que os estudantes ainda escrevem assim.

 

Ao que Brodsky responde:

 

Isso acontece porque é mais fácil expressar-se em verso livre. Mas a poesia não é uma questão de auto-expressão. É algo diferente. Ela é também uma espécie de artesanato.  

 

Em 1975, repete-se a dúvida perante as escolhas do poeta e, a voz do artesão volta a soar, invocando a disciplina e recordando a origem temporal da poesia como o discurso metrificado composto para ser cantado:

 

P: Por que você escreve predominantemente em formas tradicionais?

R: Há muitas razões. A primeira é que eu amo a música, a organização. Devo dizer, porque é muito mais difícil de fazer do que qualquer outra coisa, do que o verso livre, por exemplo, até mesmo do que o verso branco. É algo que lhe dá uma moldura ou estrutura muito estrita, logo não é questão de sua própria liberdade. É uma questão de liberdade de linguagem, de saber do que a linguagem é capaz dentro dessa estrutura estrita. É simplesmente um senso de disciplina.

 

 Finalmente, num depoimento tardio, a já referida entrevista concedida à Partisan Review em 1986, surge a afirmação talvez mais límpida e direta de Joseph Brodsky sobre sua relação com a forma poética:

 

P: Alguns poetas hoje em dia não usam a rima e o metro, alegando que essas formas não são relevantes para a experiência, ou que a experiência não possui a continuidade e estrutura que elas implicam.

R: Eles têm direito a sua opinião, mas eu acho essa opinião um lixo. A arte é basicamente uma operação regida por um contrato, e você tem de respeitar todas as cláusulas do contrato. Para começar, você escreve poesia com o objetivo de influenciar mentes, influenciar corações, comover corações, comover as pessoas. A fim de fazer isso, você tem de produzir algo que tenha uma aparência de inevitabilidade e que seja memorável (...)

 

Diogo Rosas G. é escritor, tradutor e diplomata. Seu romance "Até você saber quem é" foi publicado em 2016 pela editora Record.