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Estátua de Multatuli em Amsterdã

por Daniel Dago

 

"Max Havelaar", de Multatuli, é o principal romance da história da Holanda. Não há outro jeito de apresentar esta obra, inédita por aqui, aos brasileiros. 

Mas por que este livro de 1860 ainda hoje é posto em 1º lugar no cânone da Sociedade de Literatura Holandesa e seu autor é o mais importante do país? Por que figuras totalmente díspares entre si o tinham em alta conta? Freud colocou a obra completa de Multatuli no topo de seus "livros amigos". D.H. Lawrence o elogiou rasgadamente num prefácio da edição inglesa de Havelaar. Van Gogh citou o autor em cartas. Mahler falou euforicamente sobre o romance durante jantares. Lênin o citou em diários. Arnon Grunberg diz que é seu clássico holandês favorito.   

Mas do que se trata "Max Havelaar", afinal? A sinopse básica seria esta:

Droogstoppel, um corretor de café extremamente mercenário, recebe uma caixa com inúmeros manuscritos feitos por Max Havelaar, um antigo colega. Então começa a ler um deles, "Os leilões de café da companhia holandesa de comércio", onde Havelaar conta suas experiências como assistente residente, cargo semelhante ao de vice governador, nas Índias Holandesas, atual Indonésia, colonizada pelos holandeses. Idealista, Havelaar acaba se desiludindo com a corrupção local e exploração dos indonésios.

O que realmente faz a graça do livro é sua forma. Ele possui a estrutura das "Mil e Uma Noites", uma história dentro de uma história, intercaladas por inúmeras digressões - engraçadíssimas - de Droogstoppel e seu ajudante, Stern. Logo no começo, por exemplo, quando Droogstoppel recebe caixas e caixas de manuscritos, passa ao menos cinco páginas listando o conteúdo de cada um. Um manuscrito mais doido do que o outro. 

Recursos literários? Escolha seu preferido: dramaturgia, prosa, poesia, parábola, correspondência, até documentos oficiais verdadeiros - tem de tudo. Registros? Escolha seu preferido: baixo, alto, técnico, religioso, político, poesias em alemão, trechos em francês, sem falar nas incontáveis - mesmo! - palavras em indonésio e malaio - tem de tudo. O romance abraça e não solta a tudo e todos. Aliás, romance?! Ele pode ser lido como livro de contos, de História, tratado político, ou autobiografia, pois Multatuli, ou melhor, Eduard Douwes Dekker, quem bolou o pseudônimo latino significando "sofri muito", realmente passou pelas mesmas agruras que Havelaar.

Para completar, há um apêndice feito pelo próprio autor com 200 notas, comentários, na verdade. As notas têm os MESMÍSSIMOS recursos ranqueados acima. Há nota em que ele menciona uma poesia e resolve colocá-la na íntegra. Há nota com apenas três palavras. Há nota que toma três páginas. Faria a alegria de David Foster Wallace.

No último capítulo do livro o próprio Multatuli interrompe seus personagens, entra em cena e toma a voz, dirigindo-se diretamente ao Rei da Holanda, criticando-lhe duramente.

Fora toda a parte política - por causa de "Max Havelaar" houve reformas profundas na política holandesa e indonésia, deve ser o único romance ocidental que teve um impacto social tão grande quanto "O capital", "A interpretação dos sonhos", "A origem das espécies" -, o livro é assustadoramente moderno. Se tivesse sido publicado originalmente ontem seria chamado de pós-moderno. 

Multatuli é o irmão que Machado de Assis nunca teve. Ambos foram contemporâneos e são similares em diversos aspectos: senso de humor, senso crítico, influências literárias. Se você pensou em "Tristram Shandy"... acertou!

Apesar de ter sido traduzido para 40 línguas, "Max Havelaar" nunca saiu no Brasil. Apenas um trecho, a parábola "A história do cavouqueiro japonês", consta em "Mar de Histórias, vol. 4", traduzida do alemão por Aurélio Buarque de Holanda e Paulo Rónai. Tentativas foram feitas por outros tradutores mas o livro nunca foi publicado. Em Portugal há uma única edição, traduzida do inglês.

Este pobre tradutor de holandês que vos escreve está há anos traduzindo-o e prevê entregá-lo à  yiné ano que vem, justamente quando se completa 130 anos da morte de Multatuli. Justo quando o homem morre... o livro nasce?! Só no Brasil mesmo. 

 

Daniel Dago nasceu em São Paulo. Traduziu diversos clássicos holandeses, como Nescio, Louis Couperus, Marcellus Emants, Simon Vestdijk, entre muitos outros, todos no prelo. Pela  Âyiné sairá duas traduções suas "Max Havelaar", de Multatuli, e "Blocos", de Ferdinand Bordewijk.