Editora Âyiné Editora Âyiné

O poeta e seus amigos

Por Diogo Rosas G.

Quando Joseph Brodsky chegou aos EUA em 1972, ele havia completado 32 anos de idade havia poucos dias. A despeito de sua juventude, Brodsky já possuía uma reputação dentro e fora da União Soviética. As fontes de tal reputação eram muitas: uma inteligência aguda, alimentada por uma educação largamente autodidata, a amizade e proteção da matriarca dos poetas russos no século XX, Anna Akhmatova, e, mais destacadamente, o célebre processo a que Brodsky fora submetido em 1964, onde as autoridades soviéticas acusaram-no de: "possuir uma visão de mundo prejudicial ao Estado, decadência e modernismo, incapacidade de terminar seus estudos e parasitismo social... exceto pela composição de péssimos poemas". Sua atitude desafiadora perante o tribunal e a condenação a cinco anos (dos quais serviu 20 meses antes da pena ser comutada) de trabalhos forçados no Círculo Polar Ártico terminaram por cimentar essa reputação.

Todas os aspectos da precoce lenda que se formou em torno do poeta reaparecerão e serão explorados sob muitos ângulos nas entrevistas do livro Conversas (N.E.título provisório) que a Editora Âyné irá publicar no primeiro semestre de 2017, em minha tradução. Aqui, porém, acho que vale a pena chamar a atenção do leitor para uma faceta óbvia, mas frequentemente soterrada em meio a uma biografia tão vasta: a de Brodsky como estudioso da tradição poética e amigo de alguns dos mais importantes poetas do século XX.  É importante notar, sob esse aspecto, que Brodsky abandonou a escola aos 15 anos e teve uma formação intelectual autodidata, navegando as dificuldades da censura soviética. Na adolescência, estudou polonês, língua que lhe deu acesso a autores banidos em russo e também lhe garantiu um trabalho como tradutor. Mais tarde, em seu exílio interno no Círculo Polar Ártico, aprendeu inglês lendo uma antologia de poesia inglesa e norte-americana.

Ao longo das entrevistas publicadas no livro, Brodsky é instado muitas vezes a falar dos grandes poetas com quem sente maior afinidade, daqueles a quem conheceu e de quem foi amigo no curso da vida. Neste sentido, sua resposta a uma dupla de entrevistadores poloneses que, no final da década de 1980, perguntam sobre sua relação com o Czesław Miłosz (Prêmio Nobel de 1980) é altamente representativa de sua condição de poeta entre duas culturas, do exilado que escrevia poesia em russo e prosa em inglês, do vencedor do Nobel que levou para a cerimônia de transmissão do prêmio dois discursos idênticos, um em sua língua mãe, outro em sua língua adotiva:

Milosz é simplesmente uma presença tremenda. Tenho muita sorte de conhecê-lo pessoalmente. Antes de mais nada, eu traduzi alguns de seus poemas. Em segundo lugar, ele me ajudou enormemente. Ele me escreveu uma carta, uma carta bastante curta, no exato momento de minha chegada aos Estados Unidos, que curou muitas das ansiedades que eu tinha naquela época. Ele disse na carta, entre outras coisas - ele estava falando de tradução, etc., etc. - ele disse, entendo que agora você está preocupado com ser capaz de continuar escrevendo em um país estrangeiro, etc. Ele disse, se você parar, se você falhar, não há nada de errado nisso. Já vi esse tipo de coisa acontecendo com as pessoas, é perfeitamente humano, etc.

Obviamente, o poeta continuou escrevendo, e fazendo amigos. Para além das amizades de Milosz, Robert Lowell e Derek Walcott (outro vencedor do Nobel), os nomes mais marcantes na vida - e recorrentes nas entrevistas - de Brodsky são os de W.H. Auden e Anna Akhmatova.

Em termos poéticos, o Brodsky poeta e professor não deixa dúvidas sobre sua admiração pela obra dos dois. Akhmatova entra em seu cânone russo do século XX, ainda que não na primeira posição:

(...) se você está falando do século XX, eu vou lhe dar uma lista de poetas. Akhmatova, Mandelstam, Tsvetaeva (e ela é a maior, em minha opinião. O maior poeta do século XX foi uma mulher). Eu falei Pasternak, não? Bem, é meio óbvio; também Klyuev, Khodasevich, Zabolotsky.

Quanto a Auden, ele é simplesmente o modelo poético do século XX:

E, com a exceção de Orwell, eu o considero [Auden] o maior estilista da prosa inglesa. (...) Para mim, ele é muito mais profundo ou "sublime" do que qualquer outro, mais do que Yeats ou Eliot, (...) Enquanto escrevo, penso em Auden, o que ele diria - ele acharia uma porcaria, ou um pouco divertido?

No entanto, é em resposta a uma pergunta precisamente sobre os dois poetas que Brodsky dá a dimensão da importância de ambos em sua vida:

P: Você conheceu Auden e Akhmatova, e eles parecem ter sido muito importantes em sua vida. Você poderia dizer algo sobre Auden e Akhmatova, como eles o impactaram, como o afetaram? 

R: Eu posso lhe dizer como. Eles se revelaram pessoas que eu descobri que podia amar. Quero dizer, se tenho uma capacidade para o amor, aqueles dois me permitiram exercitá-la, possivelmente ao máximo. Isso chega ao ponto de que às vezes penso - curiosamente, não tanto sobre Akhmatova, mas sobre Auden - que sou ele.

Além dos mencionados acima, em Conversas o leitor poderá encontrar comentários pessoais e idiossincráticos de Brodsky sobre muitos outros poetas, como Constantine Kavafis, Wisława Szymborska, John Donne (traduzido por ele no Ártico), Jorge Manrique e Thomas Hardy.

Diogo Rosas G. é escritor, tradutor e diplomata. Seu romance "Até você saber quem é" foi publicado em 2016 pela editora Record.