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Gordon Matta-Clark, Conical Intersect

Por Flavio Quintale

Traduzir do alemão para o português é sempre um desafio. Línguas tão diferentes e tão distantes. Isso para não falar do russo, do japonês, etc. A probabilidade do tradutor do alemão, por exemplo, encontrar pelo caminho textos de Friedrich Hegel, Walter Benjamin ou Robert Musil, apenas para citar alguns, é muito grande. Independentemente do gosto pessoal, é inegável a importância e a riqueza de conteúdo de autores desse nível. Traduzir Robet Musil, autor que já exige bastante de qualquer leitor alemão culto, é tentar ser um alpinista que se propõe a escalar uma das montanhas mais trabalhosas da cordilheira desse idioma.

Alpinista prudente, ele deve selecionar com cuidado todo o material de segurança. Além da roupa, ele precisa checar todos os aparatos de proteção do frio e do mal tempo. Passar em revista, com extrema precaução, as cordas, para que elas sirvam de apoio e não de enforcamento. Com o equipamento em ordem, ele pode iniciar a subida. Para tanto, porém, não basta apenas ter todo o material em ordem. É necessário ter estudado anteriormente a montanha, ter uma boa noção de sua localização geográfica e antever algumas das possíveis adversidades a que ele estará sujeito. Bom senso na hora de colocar o pé nos rochedos e desconfiar sempre dos atalhos. Depois de inúmeras pausas, para repor líquidos e enxugar o suor, corrigir falsos desvios e estratégias, o alpinista vai avançando, sem pressa, mas sem repouso, observando o topo se aproximar. O contentamento começa a aumentar e ele sente as primeiras sensações de recompensa pelo seu empenho. Quando finalmente chega ao cume, contempla a vista com calma. O momento é único e totalmente pessoal. A beleza da paisagem e o deleite na vastidão do horizonte fazem com que ele veja e compreenda coisas que não era capaz de enxergar quando ainda estava no pé da montanha. E, sem egoísmo, o alpinista, como o tradutor, quer partilhar esse momento de satisfação com os amigos e os leitores, para que esses também tenham acesso a muitos dos esforços e dos prazeres que eles tiveram ao longo da escalada.

Esse gosto é seguramente também o da editora Âyiné que publicou minha tradução do ensaio Ruminações de um lerdo de Robert Musil, texto de 1933, inacabado, mas de uma atualidade assustadora, em tempos de Estado Islâmico, Donald Trump e outros radicalismos no mundo como um todo. Musil é autor de um dos maiores romances em língua alemã do século XX, O Homem sem Qualidades, também inacabado. Na edição da Âyiné, Ruminações de um lerdo, texto até então inédito em língua portuguesa, é acompanhado de um ensaio de Emmanuel Lévinas, Reflexões sobre a filosofia do hitlerismo, e de um estudo de Arnold I. Davidson. Esses três textos compõe o volume Reflexões sobre o nacional-socialismo.